domingo, 7 de março de 2010

"NÃO ENTENDO AS MULHERES. RESTA ADMIRÁ-LAS"

Parece impossível concebermos a idéia da vida sem o amor, e creio que poucos discordam disso. No entanto, nem sempre foi assim. Também não se pode negar que nada simboliza tão originalmente o amor como a mulher, não pela sutileza que a essência desta possui, mas pela beleza que ela traduz. No entanto, igualmente, nem sempre foi assim.

O amor é um sentimento relativamente rescente, ou melhor dizendo, há pouco mais de três séculos todos se renderam ao seu poder, passaram a aceitá-lo como um sentimento e se deliciaram com seus frutos.


Por muito tempo os homens copularam como animais, por instinto, em posição característica do mundo animal, com a finalidade prioritária de procriação. Porém, com a evolução da espécie e a mudança significativa na estrutura corporal dos humanos, onde adotaram uma postura ereta, as “tetas” tornaram-se seios, o homem passou, em razão das dificuldades então encontradas, a manter suas relações defronte à sua companheira, o que permitia olhar em seus olhos ………… Nasce a paixão!!

Apesar de todos estes fatos, o amor e mulher custaram a brindar juntos a conquista e o reconhecimento, mesmo porque a história teimava em desprezá-los. A mulher conquistou o posto de companheira, porém não perdera o posto de serva.

Até o final do século XIX as mulheres viviam reclusas em casa, expressamente proibidas de sair sem a companhia de um homem da família, e desempenhavam o papel de gerentes do lar. A formação educacional padrão da época era exercida por padres, em domicílio,onde ministravam aulas de português e religião, além dos ofícios pré-requeridos, quais eram: bordado e culinária.

Quando saiam às ruas, as famílias adotavam a mesma formação: na frente as crianças, seguidas pelas amas e babás, depois os serviçais e demais empregados; os filhos jovens; todos escoltados atrás pelo Homem, na qualidade de dono da parada toda; e finalmente a mulher atrás dele, na qualidade de agradecida por tamanha oportunidade de engolir a poeira de todo o bando.

As portas e janelas das casas eram seladas com madeira para que “olhares curiosos” não ousassem perturbar a “paz“ da casa, e as mulheres que infringissem essa lei eram enviadas aos conventos, para encontrar essa “paz” junto ao Criador, isso quando não as mandavam conversar diretamente com o Mesmo.


“Uma mulher já é bastante instruída quando lê corretamente as suas orações e sabe escrever a receita da goiabada. Mais do que isso seria um perigo para o lar” – Provérbio português em voga na época.


De fato a igreja era praticamente o único espaço social em que se movia a mulher da época. Quando muito, acompanhava um cortejo religioso, sempre protegida por um parente do sexo feminino, coberta por véu. Não era à toa que a quantidade de festas religiosas impressionava os estrangeiros. Tudo era pretexto para louvar um santo. O incentivo vinha de duas classes: Os escravos, pois tinham dia de folga e a mulher que podia sair.


Eis que em meados do século XVIII a mulher e o amor encontraram outra aliada em sua batalha, a Música. Com exceção da valsa, as danças elegantes de salão eram coletivas ou de grupo. Surgida em meados do século XVIII, a valsa foi durante largo tempo proibida nas cortes européias por introduzir a novidade do par enlaçado.

Com a chegada da Polca ao Brasil, originária da Polônia, inicialmente dança de camponeses, acusada por muitos de dança voluptuosa, reforçou-se a intimidade proposta pela Valsa, e os homens precisavam agora não apenas de uma companheira nos salões. A mulher passou então a sair de casa e frequentar os bailes, ganhando o “braço“ de seus maridos, antes rejeitados, sabedoras que a música as haviam libertado.

Foi assim, com muito amor e música, que uma mulher conquistou a única coisa que faltava, a liberdade, e o maior nome dessa luta foi Chiquinha Gonzaga.


Compositora, instrumentista, regente. (17/10/1847– 28/02/1935), foi a maior personalidade feminina da história da música popular brasileira e uma das expressões maiores da luta pelas liberdades no país, promotora da nacionalização musical, primeira maestrina, autora da primeira canção carnavalesca, primeira pianista de choro, introdutora da música popular nos salões elegantes, fundadora da primeira sociedade protetora dos direitos autorais.

Casou-se aos 16 anos, com um oficial da Marinha Mercante escolhido por seus pais. Poucos anos depois abandonou o marido por um engenheiro de estradas de ferro, de quem também logo se separou, passando a sobreviver como professora de piano e vendendo suas partituras.

Filha de mestiça, duas vezes separada, trabalhadora, além de frequenter o ambiente exclusivamente masculino, Chiquinha causou uma revolta na sociedade da época, lhe rendendo muita hostilidade, preconceito, violência, repressão e abandono. Mesmo assim, foi abolicionista, feminista, republicana, lutou pelos direitos autorais dos artistas, fundando a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT) existente até hoje existe. Comprou com imenso sacrifício a alforria de um escravo, vendendo na rua suas músicas. Foi no Brasil a primeira mulher a escrever música para o teatro, a primeira a reger uma orquestra, a primeira a escrever uma marcha carnavalesca (Ó Abre Alas), e, com Joaquim Callado, participou da criação do gênero Choro.

São por todas estas razões que hoje, nós homens, agradecemos imensamente a Chiquinha por nossas mulheres, estas por seu reconhecimento, o amor por sua liberdade, e a música exclusivamente por você.

Feliz Dia das Mulheres

GUILHERME BORGES 08/03/2010

*Dedicado a Chiquinha Gonzaga

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